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9 de novembro de 2012

Dia de Sono



     Hoje acordei cedo, contra a minha vontade. Havia muito a ser feito. Tantos desenhos, tantos trabalhos, tantos textos. Apressei-me em terminar o que de imediato era necessário, para que pudesse deitar-me novamente.
    
     Dormi sem nem perceber.
    
     Sonhei que, sentada em uma sala, pensava sobre a vida.
    
     Está chegando novamente aquela época do ano. Aquela época em que ele se encerra, pra que outro comece.
    
     Todo ano ocorre a mesma coisa. Dúzias de expectativas, centenas de ideias e planos. Doze meses se passam e nada muda. Minha vida continua basicamente a mesma coisa. Engano minha consciência com as mesmas meias verdades e descaradamente minto pro meu coração, dizendo que tudo ficará bem. Ah, vida curiosa essa. Vivemos em ciclos de doze meses. Acreditamos que neles está contida toda a magia da existência.
    
     2012 talvez esteja sendo, de longe, o melhor ano da minha vida (desde 1995). Amadureci a níveis que nunca julguei possíveis. Conheci mais pessoas que jamais havia conhecido dentro de um só ciclo. Algumas terríveis. A maioria incrível, por sorte.
    
     Apesar de tanta positividade, duvido que em um só ano meu coração tenha dado tantas voltas dentro do meu peito, ou tenha corrido tanto atrás do próprio rabo. O maior ensinamento do ano? Pro inferno com a superficialidade e as aparências. Você mesma esconde tanto por trás da sua casca (um pouco mais gordinha que no ano anterior). Dezessete anos depois, finalmente entendeu o quão pouco ela representa.
    
     Fiz uma amiga imaginária também. Mais uma, na verdade.
    
     Estou noiva da Arquitetura. Caso-me em breve.
      
      (Nesse momento, a sala, até então vazia, começou a encher-se de sons. Aos poucos, tomava forma ao meu redor um jantar de Natal de filme estadunidense. Várias pessoas passavam por mim. Algumas me atravessavam. Um senhor de barba branca foi o único a me notar, e a perguntar se eu tinha fome. Disse que sim. Ele sumiu. Todo o resto sumiu também.).
    
     Continuei pensando.
    
     Passeei por lojas decoradas pro Natal enquanto mal havia terminado o primeiro período da faculdade. A maioria acharia isso um saco. Talvez um paradoxo sobre nossa existência atrasada. Eu sento e me agradeço pela greve.
    
     A greve foi bondosa em haver nos escolhido, em haver escolhido 2012. Meu 2012 não estaria sendo tão bom não fosse por ela.
      
      (O vazio da sala começou a tomar formas de uma construção quase medieval. Parecia uma taverna. Vários brasileiros vestidos como vikings passaram por mim. Um japonês magrelo e uma linda de olhos grandes vieram até mim e disseram que já havia passado da minha hora de dormir. Cochilei em sonho. Acordei na vida real).
    
     Sentei-me na cama e enrolei-me nas cobertas – apesar de não estar tão frio assim; estava com fome. Eram 18h. Estava dormindo desde as 11h30. Olhei ao meu redor, procurando os contornos da taverna, e qualquer rosto familiar. Apenas paredes brancas e os móveis do meu quarto. Não gosto de bebidas alcoólicas, mas naquele momento aceitaria qualquer coisa que viesse de lá. Sentia falta.
    
     Tentei pegar no sono mais uma vez, mas já não estava mais tão cansada. Escutei o barulho da televisão ligada na sala. Uma propaganda de Natal, com músicas típicas ao fundo.
    
     A época mais bonita do ano.
    
     Filosofei sobre as renas e até fingi que era um elfo. Convidei meus amigos imaginários a se sentarem comigo na cama. Contei pra eles sobre meu sonho. E sobre meu coração. Falei de todas as pessoas que haviam ido e voltado na minha vida. Abraçaram-me. Disse-lhes que estava encantada. Perguntaram-me o que havia me encantado. Tive medo de admitir para mim mesma, então não quis contar para eles. Mas eles sabiam. Eram parte de mim.
    
     Brincamos de cantar músicas de The Rocky Horror Picture Show, até que caíram no sono. Eu permanecia acordada. Ao fundo, a canção natalina continuava tocando.
    
     Foi quando percebi que ainda estava sonhando.
    
     Um sonho dentro de outro sonho.
    
     Fiquei presa lá por várias horas ainda.
    
     Teria ficado por ainda mais tempo. Porém, tinha um compromisso importante às 8h, no dia seguinte. Não podia perdê-lo.    
    
     Não podia perdê-lo.

10 de outubro de 2012

Guardados, debaixo de sete chaves.



Ah, mundo. Tão vasto, e enorme mundo.
     
Enorme mesmo. Muitos milhões de quilômetros quadrados. Muitos bilhões de pessoas. Milhares de cidades. Centenas de países. Tantas vidas, corridas, sofridas, vivem e morrem todos os dias. Todos os dias.
     
Eu vivo em uma cidade. Moro com minha família. Tenho amigos do colégio, que agora vejo ocasionalmente, e amigos na faculdade, que vejo todos os dias (e nas madrugadas também, às vezes). Sempre nos encontramos, nos abraçamos, nos irritamos, damos tapas, e brincamos de levar a vida a sério enquanto tomamos um açaí com leite ninho, perto do bloco da Música. E tem também os amigos da igreja, os da escola de inglês, e todos aqueles que a gente acaba conhecendo pelas quebradas da vida.
      
E mesmo com esse tanto de gente ao meu redor, dentro desse meu comprometimento de tornar amigos em irmãos, eu ainda consigo arranjar mais gente pra cuidar e amar.
     
Só que longe de mim.
     
Essas pessoas que a gente conhece sem querer, nos comentários de um blog, ou num grupo no Facebook. Pessoas interessantes (que compartilham dos nossos interesses mais bizarros), a princípio seres aleatórios, mas que vão entrando na nossa vida, na nossa rotina, até que percebemos que já se tornaram como companhias congênitas, daquelas que você quer levar pra vida inteira. Daqueles com quem você quer sair pra falar sobre besteiras, sentado num balanço do departamento de Física, fazendo barulho com o canudinho do refrigerante.
     
Mas eles não estão aqui. 
     
A gente se fala todos os dias, mas quando eles choram, não dá pra abraçar um computador e esperar que ela fique bem. E dar tapas no mouse não é efetivo como forma de expressar nossa indignação quando fazem besteira. Damos risadas, mas às vezes gostaria de escutar como elas soam juntas, sem o som metalizado de um fone de ouvido. Videoconferências não bastam quando ganhamos um brinquedo novo, ou estamos chorando copiosamente. 
     
Nosso calor, tão mais quente quanto o humano, é apenas virtual.
      
Quem sabe quando poderemos nos encontrar?...
    
... 
    
Hoje, mais tarde. Amanhã. Semana que vem. Ano que vem.
    
Nunca? 
   
...
    
...
    
O nunca nunca mudaria.
      
Na falta do calor dos seus abraços, o calor de seu amor e sua amizade aquece meu coração.
       
Posso me virar enquanto nos vemos só nos sonhos.

7 de setembro de 2012

Alegoria da Taverna - Capítulo IV

[Para o capítulo anterior, clique aqui!]


     Seguiram-se momentos pandemônicos. Alguns gritavam por seus nomes. Komatsu colocou as mãos sobre o rosto, e suspirava de forma tão alta que parecia uma máquina. Ana queria sair correndo procurando pelos dois, mas tropeçou em uma pedra e caiu em cima de Marcelo. No clima tenso, começaram a discutir energicamente. Ele gritava, ela gesticulava e mexia a boca de forma nervosa. Sendo de alturas parecidas, tentavam se impor um sobre o outro. Não soubemos se deveríamos ou não interferir até que Ana fez menção a pegar uma pedra que havia no chão, e usá-la para substituir os chinelos que costumava usar para atacar pessoas imbecis. Nasser tentou segurá-la, mas o movimento já havia quase se finalizado. Por pouco, não atingiu o Marcelo. Bateu em uma árvore e foi parar sobre um tufo de grama. O tronco, aparentemente oco, fez um som ecoar por toda a área.
      
     - Isso já está ficando ridículo! Ridículo! – Paulino estava perdendo a paciência, ainda tão cedo na jornada. – Se eu tivesse meu arco-e-flecha aqui agora, estariam todos mortos. TODOS VOCÊS.
     
     - Ei, não fui eu quem saí caindo em cima das pessoas! – Marcelo falou de forma gritada, encarando Ana. Gabriel e Komatsu os puxaram e seguraram, impedindo que brigassem.
     
     - Vocês parem todos com essa bagunça! Já deu de discussão! Nós não vamos encerrar nada disso aqui se não nos organizarmos, e pararmos com as briguinhas bestas! Já não estamos com problemas demais? Não vamos sair do lugar nunca assim! – Komatsu ainda segurava Marcelo pelo braço. Estava com a expressão bastante franzida, e seus olhos puxados pareciam ser ainda menores.
     
     Ficamos em silêncio mais uma vez. Aquilo era um jogo. Devíamos jogá-lo da forma correta. Nasser estava sentado em uma pedra próxima a mim, lendo o mapa. Observei-o discretamente por trás.
     
     - Luísa, quer olhar o mapa? – Ele se virou de repente. Meus olhos se esbugalharam ligeiramente.
     
     - Ah, é, não, não, não precisa. Não precisa. Eu só queria saber das... Das... Sabe, das... Perspectivas. Das perspectivas do caminho.
     
     - Bom, já que é assim – Virou o mapa pra que eu pudesse enxerga-lo melhor - Isso é que é estranho. Antes do clarão, o mapa indicava claramente que deveria haver um descampado em 20 metros, mas – Ele se levantou, e apontou o caminho – Nem dentro de uns 100 metros encontramos um. – Estava certo. O corredor de árvores sumia de vista, tão longo.
     
     Tomei o mapa em minhas mãos e tentei entende-lo. Talvez houvessem interpretado incorretamente as direções, pensei eu. No entanto, algo parecia estranho. Não conseguia nos identificar ali. De forma nenhuma.

     Uma pedra me atingiu por trás. Virei-me soltando alguns xingamentos deselegantes, mas era apenas uma forma de Ana me avisar que tinha algo a dizer. Aproximei-me dela que, usando um graveto, havia escrito numa pequena área arenosa do solo “Não estamos no mesmo lugar”.
     
     - “Não estamos no mesmo lugar”???? – Falei em voz bem alta. Todos se viraram para nós. Ela confirmou com a cabeça.
     
     - Claro que estamos no mesmo lugar. Como poderíamos ter saído da floresta? – Gabriel parecia confuso. – Olhe ao nosso redor, estamos em uma floresta! O que poderia ter acontecido? Uma eversão?
     
     - Isso mesmo. – Johnny surgiu em meio às árvores, e nos deu um baita susto. Segurava um livro nas mãos. – Ocorreu uma eversão de cenário. Estamos na mesma floresta ainda, mas em um patamar diferente. 
     
     - E como você sabe disso? - Marcelo permanecia preguiçosamente sentado sobre uma pedra.
     
     - Peguei esse livro na biblioteca do Burgo há uns anos. – Ergueu-o, mostrando a capa. “Bosques do Oés-Sudoeste – A Terra dos Magos” – Por algum motivo, veio comigo. Reconheci alguns cenários descritos aqui, e resolvi procurar por algo de útil. Há um capítulo inteiro sobre magos como o Damian. São descritos como “Lagostas mágicas”. As garras são grandes e aparentes, e você sabe que vão te fazer mal. Mas insiste em acha-los inofensivos. – Todos trocaram olhares. Desconhecendo a história da chegada de Damian à taverna, não desviei o olhar. 
     
     - Então esses são os Bosques do Oés-Sudoeste? – Marcelo continuava indagando Johnny.
     
     - Não, Marcelo, não exatamente. Estamos na área mágica particular do Afetadíssimo. Fica localizada... Dentro da magia dele. E é de uma energia altamente poderosa. Nem mesmo o poder do Mestre dos Magos consegue alcança-la. – Correu os olhos rapidamente pela área, depois voltou-se para Marcelo. – Se eu fosse você, não se sentaria sobre as pedras. Nenhuma delas.
     
     Àquela altura, quase todos haviam se sentado sobre pedras. Levantaram-se imediatamente. A pedra sobre onde Paulino estava desapareceu.
     
     - O quê exatamente acabou de acontecer? – Seus olhos estavam arregalados, e seu corpo estava tenso. Estávamos todos confusos.
     
     - As pedras são os portais. Até mesmo as menores. Um dos dois, Willians ou Ariane, deve ter pisado em alguma. Agora, alguma coisa aconteceu para que nós passássemos para o próximo cenário também, e para que houvesse uma separação. Ainda não consegui descobrir.
      
     Observando melhor, as mudanças na floresta eram notáveis. As árvores eram mais altas e de copas menos fartas. O céu era mais escuro, e o tempo parecia mais nublado. Até os sons dos pássaros soavam mais assustadores e macabros. Ana pegou em uma das minhas mãos, segurando-a fortemente. Antes que eu percebesse, Gabriel segurava a outra. 
     
     - E onde conseguimos um mapa desse novo cenário? Não dá pra atravessar sem isso. – Komatsu estava ao lado de Johnny, inspecionando o livro.
     
     - Aí é que está. O mapa de cada cenário é protegido pelo Guardião da Floresta.

     - Guardião? Tipo os outros guardiões, grande e malvado? Era só isso que nos faltava! – Gabriel apertou ainda mais minha mão.
     
     - O livro diz que ele se chama “Massacote”, e que sua maior característica é aparecer quando não é convidado. Diz também que essa é a chave para encontra-lo. – Enquanto Johnny falava, Nasser quebrava galhos de algumas árvores mais baixas. – Eu sinceramente não sei o que isso significa.
     
     - Talvez seja algo relacionado à não estarmos pensando nele. Temos que ignorá-lo, talvez? – Marcelo procurava alguma árvore que não tivesse espinhos, em cuja superfície ele pudesse recostar. 
     
     - Duvido. Damian não colocaria um desafio tão complexo assim bem no início do jogo. Ele quer nos ver atingir os níveis mais profundos que conseguirmos. Faz parte de sua personalidade doentia. – Um relâmpago inesperado surgiu. – DOENTIO! – Johnny gritou para os céus. Choveu abundantemente por uns oito segundos.
     
     - Johnny, mais alguma coisa de útil desse livro? – Tentávamos nos secar, ensopados como estávamos. Sentia meu nariz coçar.
     
     - Muita, muita coisa. Pode ser nossa salvação. – Ele falava enquanto apertava os cabelos, tirando o excesso de água. – Na verdade, acho que poderíamos atrasar mais um pouco nossa caminhada, para que eu possa falar de outras coisas. – Pausou e olhou para os céus. Escureciam rapidamente.
     
     - Bom, se realmente vamos começar a levar isso a sério, e jogar no modo hard – Nasser se aproximava, pingando, carregando madeira. Tropeçou em uma pedra. Conseguiu equilibrar-se, mas estávamos todos observamos a situação de forma tensa. Ela se movimentou levemente, até encostar-se a uma outra pedra próxima. Ambas desapareceram.
     
     Um minuto de silêncio.
     
     - Bem... – Nasser mantinha olhos ligeiramente esbugalhados. – Como eu dizia. – Pigarreou. – Precisamos de alguns instrumentos de sobrevivência. Podemos usar essa madeira como cajados, para espantar as pedras, ou armas letais, pra perfurar e matar os inimigos. Cada um escolhe a melhor maneira. – Jogou tudo no chão. Fomos nos aproximando da pilha.
     
     - Galera, eu queria pedir desculpas. – Komatsu começou a falar de repente. Estava distante, não mexia nos materiais conosco. – Eu devia ter impedido que Damian entrasse na Taverna. Achei que ele nos faria bem, afinal, é isso que eu pensei que os magos faziam. Perdi o controle da situação. E perdi minha força.
     
     A expressão em seu rosto era realmente muito desanimada e arrependida. Eu ainda me recordava de, no primeiro dia – ainda que em clima de descontração – jurar lealdade aos nossos Taberneiros. Aproximei-me dele e coloquei uma das mãos sobre seus ombros, em gesto de apoio.
     
     - Você impõe respeito naturalmente, não precisava ter o corpo de um viking. – Ele sorriu em retribuição. – Na verdade, era mais complicado te respeitar. Era quase cômico. – Nasser soltou uma gargalhada. – Todo mundo te perdoa. – Virei-me para o grupo, e todos balançaram suas cabeças, em confirmação. – Vamos lá, temos uma taverna pra salvar.
     
     Todos demonstraram apoio à causa, e disseram algumas palavras ao Taberneiro. Por um momento, tudo ficou em paz. Usávamos algum cipó para improvisar espadas com a madeira, e fazíamos o som de sabres de luz enquanto “treinávamos” nossas habilidades. Quando se tornou noite completa, Johnny usou seu isqueiro e papel que arrancara das beiradas não ilustradas do mapa para acender uma fogueira. Não sentíamos fome, e era difícil de explicar. 
     
     Eu e Marcelo simulávamos uma luta quando vi duas formas se aproximando na escuridão, em meio às árvores, meio cambaleantes. Soltei um grito. Conforme se aproximavam, a pouca luz mostrava que estavam vestidos de vermelho. Não sabíamos o que fazer. As espadas estavam empunhadas (e foi uma cena consideravelmente engraçada, se não trágica, diário). 
     
     Estávamos prestes a atacar quando os rostos foram iluminados e vimos que se tratavam de Jaime e João Pedro.

[To be continued]

1 de setembro de 2012

Alegoria da Taverna - Capítulo III

[Para o capítulo anterior, clique aqui!]


     - Acalme-se, Ana, por favor. Nós precisamos nos organizar. Quando você notou que não conseguia mais falar? – Nasser parecia o mais calmo no momento, e intermediava a situação. Tentávamos nos entender, mas a mudez a deixava extremamente nervosa. Alguns já haviam cedido ao cansaço, e se acomodavam em meio à grama e pedras. Outros mantinham a impaciência, e permaneciam em pé. 
     
     - Gente, nós precisamos de papel e caneta, ou carvão. Qualquer coisa que ela possa usar para escrever, ou desenhar, porque não temos tempo suficiente para combinar um código que substitua a fala. – Minha cabeça doía incessantemente. Poucos minutos se passavam, mas a atmosfera que nos envolvia fazia parecer horas. A floresta era colorida, porém ameaçadora. Uma névoa não muito densa parecia estar por todo lugar, se misturando à fumaça de cigarros. Sentíamos como se um monstro pudesse sair detrás qualquer moita.
     
     - Precisamos, no mínimo, de uma estratégia simples, para tentarmos ao menos sobreviver. – Johnny já estava fumando o sexto ou sétimo. – Parece que a lógica é bem simples, mas aquele mago afetado não permitiria que fosse simples assim.
     
     Uma opressão pairava pelo ar e nos sufocava. Ana chorava, Ariane chorava, eu chorava. E qualquer um daqueles machões de cabelo recém-cortado certamente choraria, não fosse o orgulho. Apesar de todas as piadas, nossa situação não era das melhores. Algumas corujas piavam numa árvore próxima, apesar de ainda ser dia.
     
     - E o quê a gente faz agora? – Ariane disse, entre soluços, sentada sobre uma pedra.
     
     Organizar uma tática de ação? Tentar fazer com que a Ana pudesse falar novamente? Continuar chorando? Eu realmente não sabia. Um vento não parava de soprar.
     
     - Olha, seu bando de feio, só tem uma coisa que dá pra gente fazer... – Willians irrompeu, cheio de uma energia puxada de não sabemos onde – Temos que começar a andar. Vamos lá, levantem essas bundas do chão, antes que eu mesmo faça isso. – Nos encarávamos, apoiados em muito musgo escorregadio, decidindo e pesando as consequências. – ESTOU FALANDO SÉRIO OK. Vamos lá, Maligna, me dê sua mão, levante daí.
     
     Aceitei sua ajuda, e levantar-me foi como uma injeção de ânimo. Parecíamos muito mais decididos e preparados para seguir em frente – ainda que não passasse de uma aparência, no nosso íntimo. 
     
     - Não temos escolha, galera. Por nós, e pela Taverna! – Lord Komatsu esbanjava autoridade, apesar da aparência tão mais frágil, com a qual ainda nos acostumávamos. – Willians, acompanhe a Ariane. Luísa, Gabriel, fiquem com a Ana. Nasser e Johnny cuidam desse mapa. Marcelo e Paulino vigiam as nuvens. Algo me diz que Damian não nos deixará em paz tão cedo assim.
     
     Puxei ar profundamente. Um brilho avermelhado intenso irradiou do Sol já um tanto apagado, e pressentimos que havíamos superado um primeiro desafio.
Agora só faltavam todos os outros.
     
•••
     
     Estávamos caminhando floresta adentro havia alguns minutos. A primeira parte do caminho era relativamente óbvia – as próprias árvores estavam especialmente afastadas naquele trecho, praticamente retilíneo. Suas copas eram tão fartas que coroavam nossos passos e nos impediam de observar o céu. Marcelo e Paulino não andavam diretamente conosco – estavam em meio à mata, procurando vestígios das nuvens e do Sol.
     
     Eu não saberia dizer se era um efeito direto das tantas horas passadas dentro da taverna – ainda que eu houvesse passado alguns dias fora da mesma –, mas me sentia altamente estranha caminhando por aquele lugar. Talvez fosse também consequência das árvores que pareciam nos escutar e vigiar, ou do farfalhar nada convidativo das folhas, mas é tudo relativo e circunstancial quando sua própria vida está em risco. O mais prudente era me acostumar àquela atmosfera. Até porque, pelos meus cálculos – meramente superficiais –, ainda estávamos incrivelmente longe da tal construção à qual devíamos chegar.
     
     À exceção de alguns comentários que Johnny, Nasser e Komatsu trocavam à respeito do caminho e do mapa e Marcelo e Paulino, a respeito da procura pelo céu (além de alguns sons horríveis que a floresta parecia emitir), estávamos em silêncio. Eu até suporia que se a própria Ana não estivesse muda, também estaria calada por vontade própria. 
    
     Teríamos permanecido ainda assim por algum tempo. Porém, diário, você sabe que nada fica parado e quieto por muito quando nós estamos envolvidos na situação. Sempre há algo a ser dito, ou alguma tragédia para ocorrer.
     
     Foi mais ou menos o que acabou ocorrendo.
     
     Caminhávamos sem muita cautela, concentrados em qualquer coisa à exceção do que fazíamos. Ana, vez ou outra, pigarreava, na esperança de ter sua voz de volta. Komatsu às vezes se virava para nos dar um sorriso de incentivo, e acabava por quase tropeçar em algumas pedras que estavam pelo caminho. Alguma risada leve. O som de alguns galhos sendo quebrados por Marcelo e Paulino, enquanto atravessavam o mato. Vez ou outra sentia estremecer meu corpo, pela sensação de que algo havia passado correndo, roçando-me as pernas. Outros também estremeciam. Passamos por ruínas de pequenas construções, vários tijolos espalhados. E o corredor de árvores parecia infinito.
     
     Mais tarde ficamos sabendo que o mapa indicava uma mudança de rota dentro de alguns metros. Mas nossos planos foram forçadamente modificados quando, entre uma brisa gelada e a luz poente de Sol que passava por entre as folhas das árvores, o chão sob nossos pés tremeu. Um clarão surgiu e nos cegou por alguns segundos. Quando recuperamos a visão, Ariane não estava mais lá. Nem Willians.

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