11 de março de 2013

Cavei um buraco



     Cavei um buraco. Foi de forma discreta, silenciosa. Fiz algum alarde, mas na verdade não deixei claro o que vinha fazendo. Por algum motivo, as pessoas ainda pensam que há muito mais que se possa fazer em um campo vazio, com uma pá em mãos, e qualquer fresta de tempo livre.
      
    A verdade é que nós não somos tão criativos assim sob Sol escaldante, com tão poucas ferramentas e opções disponíveis. Antes que nos demos conta, o buraco está cavado, e já estamos lá dentro, confortavelmente acomodados em posição fetal. Choramos. Faz parte, não é.
     
    Pode demorar um pouco até que encontremos motivação ou meios para escalar as paredes mais ou menos longas do buraco em que estamos. Talvez, no fundo daquele buraco quentinho e aconchegante, haja um tesouro. Ou qualquer coisa do tipo. Talvez lá esteja um recomeço, uma nova oportunidade, uma vontade de sorrir, ou só uma corda, muito simples, mas útil para que saiamos dali. 
     
    Talvez, no fundo, não desejemos abandoná-lo. É confortável se esconder de tudo. Mas a vida continua, e podemos perder mais tempo que necessário remoendo coisas em processo de serem deixadas pra trás.
     
     
     Cavei um buraco, e entrei nele; não pretendo sair tão cedo. Só saio quando encontrar meu tesouro;
       
    
     só saio quando me reencontrar.

    
    

10 de março de 2013

Miau



Um felino diz “miau” quando quer chorar da vida
Mas também mia “miau” pra sorrir; a gata mia
Quando sente falta de sentir carinho; ela mia,
e se enrosca, e graceja, e arrepia; lamu-ria.
Gata mia, chorava e ria; tudo igual;
Tudo igual ela fazia;
    
A felina diz “miau” em qualquer dia da vida;
    
Se na chuva, se no Sol, si dó ré, mi bemol,
Vai tecendo a canção do miado (renovado),
Vai marchando, balançando, caminhando; vai miando.
Vai-se a rua, vai-se a casa, vai caminho; vai miando
A vontade de olhar da janela que se abria,
Janela dos seus olhos de felina.

Felina, arrependida, mia, lamuria;
Pisando sobre as águas que lhe foram chão, um dia.
De pé, mia; não caía;

Mia; fogo.

1 de março de 2013

SemAr



[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever todos os dias, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]

     OtempopassaeeunãovejocomopercotempodevalorfalandocoisasquenãotêmsentidoequenãofazembempramimalguémmeuDeussegureessetempoporqueeuprecisorespirartemmefaltadoartemmefaltadotempoprasentarlerumjornalepensaremquantotemporealmenteaindatenhoàminhafrenteeumerepitoefaloemcoisassemsentidoeavontadederevolucionarvaipassandocomoTempo.

26 de fevereiro de 2013

Os Planos [6 dias de Tempo]

[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever todos os dias, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]
    

      
Três pontos quaisquer que marquei
No ar, no vazio de mim;
Três retas marcadas, conectadas,
Flutuando, balançando.
      
Um plano.
Uma pose não colinear.
Um sucesso desenhado, explanado,
Espalhado, espelhado,
Colorido, enfeitado, emplumado,
Multiplicado, alinhado,
Preparado e posicionado
Na linha do tempo deste mundo
Analítico e Cartesiano.
      
Uma pena ninguém ter me contado que,
Planos, por planos, não valem de nada,
Na vida corrida de um mundo em 3D.
      
Pisei-os.
Ultrapassei-os.
      
Planos eram só o chão, afinal;
Não havia sólido ali.

25 de fevereiro de 2013

Memória [6 dias de Tempo]



[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]


     Foi numa quinta-feira, acho, mas bem pode ter sido numa quarta, ou numa segunda. O tempo perde o sentido quando estamos tão mais preocupados com o que há de vir a se do que com o que tem sido. Um grande dia chega, e há já tanta preocupação com o próximo, que as coisas esvaziam-se de sua real importância.
     
     Em algum dia destas últimas semanas, parei por um segundo e notei alguém que por mim passava. Ergui os olhos dos quadrinhos que lia, e observei seus passos lentos até seu carro. Alto, costas encurvadas. Mal erguia os olhos do chão. Movimentou a cabeça pra despedir-se de mim, com um sorriso simples.
     
     Há algo de muito sombrio sobre a Memória. Ela nos prende ao passado, mas transforma a saudade e a nostalgia em pesos insustentáveis. Passamos a viver em função de preservar a lembrança do que já passou. O Tempo congela dentro de nós. Ao nosso redor, ele continua correndo.
     
     O brilho de um substantivo é dar substância àquilo que mal existiria. Tenho um nome que é só meu. Ele também, mas não de todo. Assumiu o nome daquilo que se tornou mais importante, superior a si mesmo. Penso em seu nome, mas como o nome de alguém que esvaziou-se de quem é. Manteve a gentileza e a disposição. Vive a vida que o trabalho lhe deu.
     
     Ninguém sabe bem que ele é. Só onde ele está.
     
     Responsabilizou-se por todos nós. Fez daquilo o máximo que tem. Não sei se está feliz. Talvez tenha só aceitado. Vive num passado que se tornou presente, e futuro. Toda sua memória se repete. Quase nada muda de novo. A mesma rotina. Os mesmos passos. As mesmas funções. A mesma maleta, a mesma postura recurvada, o mesmo molho de chaves no bolso. Ontem, hoje e amanhã.
     
     Meu minuto de observação acabou quando entrou em seu carro e foi embora. Foi embora, sozinho. Já era minha hora de ir também, mas não quis. Estava presa àquele lugar. Ele também. Eu, por uns poucos tempos só; ele, pra sempre, talvez. Morreria indo e vindo, quem poderia dizer que não.
     
     Sua memória, e a memória de si, estariam sempre encrustadas nas paredes daquela sala. Para além de enquanto estivesse ali. Ele era o lugar. O lugar o era.
     
     Aquele Passado se encerra quando ele sair dali.