20 de junho de 2012

Heterônimo

Três e meia da manhã. Ainda estava acordada.

Decidir começar aquele livro havia sido, de longe, minha ideia mais cansativa. Seis meses e trezentas páginas depois, ainda me sentia em um beco sem saída e percebia que, aos poucos, a bomba do branco acabaria explodindo em minhas mãos.
A essa altura, estava presa num mesmo capítulo. O 14º, dos 17 que pretendia escrever. E realmente não sabia como encerrá-lo. Perecia nessa dúvida havia oito noites. Minhas olheiras chegavam ao nariz, e eu poderia jurar que durante a madrugada ouvia gritos vindos da minha cafeteira, tão sobrecarregada e maltratada.
Cansada do processo, cansada. Cansada da minha família. Cansada dos meus amigos. Cansada daquele maldito livro. Cansada do computador. Desliguei tudo – nada havia a ser salvo, já que nada vinha sendo escrito. Afoguei meu rosto na água gelada que saía da torneira. Sentia uma ressaca literária das piores.
Vestindo um pijama e, calçando um par de sapatilhas, com um casaco e chaves de casa presas no sutiã, saí de casa. Em plena madrugada. Sozinha. Talvez minha mãe acordasse e entrasse em desespero. Talvez fosse melhor voltar e pegar meu carro. Mas quem se importaria com detalhes quando sua mente trabalha tão lentamente – já havia caminhado mais de onze quarteirões quando consegui alcançar esse raciocínio.
Depois de muito, muito andar, acabei sentada num banco de praça. Praça muito feia, por sinal. Mal cuidada, de dar vergonha. Dei uma risada interna. Não havia qualquer espelho, mas com certeza meus cabelos se pareciam com aquela grama que havia crescido demais e padecia bagunçada e embaraçada. Observei um cão desolado passando, enquanto eu me fazia perguntas inúteis. Ele, por sua vez, devia se perguntar o motivo de um cão ser obrigado a viver desabrigado, em uma noite fria como aquela, sem qualquer comida, mas não tenho certeza. Se eu soubesse ler mentes, creio que não seria muito mais feliz.
Pode ser incrível como podemos alcançar o fundo do poço usando diferentes caminhos. Eu com certeza não imaginava a miséria psicológica que me aguardava quando, feliz, decidi que amava metalinguagem. Uma decisão altamente normal, se não comum. Isso, claro, em situações que envolvem pessoas lúcidas, equilibradas e emocionalmente estáveis, cheias de uma “força interior”. Desnecessário acrescentar que nada disso amo/sou.
Metalinguagem deveria vir com um aviso, “pensar duas vezes antes de utilizar em autobiografia não declarada”. Porque foi esse o meu erro.
Modificar alguns nomes, personalidades e situações não tornava aquela história que escrevia menos minha. E, talvez, a grande questão de todas essas noites mal dormidas não seja “o que fazer dessa história?”, mas “o que fazer da minha vida?”. Vinte anos mal vividos, à sombra da covardia. Amando qualquer coisa que porventura me olhasse duas vezes. Reclamando de tudo aquilo que pudesse movimentar minha existência a um sentido mais verdadeiro. De alguma forma, eu acreditei que escrever sobre isso esclareceria o meu destino. Só que não.
Cansei de escrever sobre ser infeliz e procurar uma felicidade de papel maché.
Sempre acreditei que estava apenas pairando sobre o abismo, na segurança de uma nuvem permanentemente tempestiva que nunca choveria pra qualquer lugar. Mas foi apenas uma crença ingênua. O escuro do abismo já me iludia os olhos havia mais tempo que eu era capaz de conceber. E a chuva já me havia enchido e afogado, entre essas quatro paredes da alienação de mim mesma.
Coloquei as mãos nos bolsos do casaco. Minha cabeça doía, e minha garganta apertava a ânsia de chorar. Olhei para os lados, e não havia uma alma, sequer uma perigosa, pra me fazer companhia. Escutei ao longe a torre da igreja badalar seis da manhã. O frio não cessava, e fazia com que eu esboçasse caretas a cada rajada de vento que atravessava aquela praça. Suspirei. Sempre gostei de suspirar.
Panfletos baratos de lojas de esquina se acumulavam próximos aos meus pés. Fiz algum esforço para alcançar um, enquanto tentavam dançar ao sabor de uma brisa. No verso de seu papel sulfite verde, um vazio. Todo um vazio. Esperando para ser preenchido pelas palavras de um poeta ou contista idealista, ou pelos esboços de um ilustrador de cartazes desempregado. Talvez os rabiscos de um matemático professor mal remunerado, que sonhava ser laureado com um Nobel.
Tudo começava por um vazio.
Esvaziei minha mente. Ou pelo menos prefiro assim pensar, já que seria impossível, por um só segundo, cessar o movimento inconstante da minha cabeça ainda muito cansada e dolorida. Mesmo assim, parecia que nada poderia me tocar, naquele momento. Éramos eu e Deus apenas. Como se esvaziar-se fosse tal qual uma elevação espiritual.
Quando abri os olhos que não havia percebido fechar, uma senhora, muito simples, estava parada a alguns passos de distância. Carregava uma bolsa puída na alça, e tinha olhos gentilmente cansados. O Sol já brilhava intensamente, atravessando as árvores de copas irregulares e magrelas, parando sobre meu olhar. A luz fê-la perceber que eu também a observava, mesmo estando com a cabeça abaixada. Não se intimidou pela minha aparência estranha.
“Com licença, querida, você está perdida, ou fugida?”
Levantei a cabeça lentamente. Há três horas, ou três horas depois de ter saído de casa? Não saberia por onde começar a respondê-la, não fosse um insight que me surgiu, tão mais rápido do que me fugira uma ideia oito noites atrás.
“Encontrada”. Um ponto de interrogação passeou por seu rosto, antes de sorrir naturalmente e, após um leve aceno de cabeça, seguir seu caminho. Depois dela, vários outros passaram, falaram, viveram... Acabei cochilando lá pelas onze daquela manhã. Fui despertada às 18 horas, pela mesma senhora; repetiu-me a pergunta. Repeti-lhe a resposta.
Já anoitecia. Ofereceu-se para acompanhar-me até em casa. Recusei, mas depois me arrependi. Caminhei solitária por várias ruas de um caminho mal memorizado, até finalmente chegar ao meu lar. O carro de polícia parado do lado de fora me deu vislumbre do que teria que enfrentar quando entrasse, mas não importava. Não agora. Finalmente terminaria aquele livro. E em paz.

7 de junho de 2012

Cough Syrup


“If I could find a way to see this straight, I’d run away to some fortune that I should have found by now…”

Era um pátio enorme. Enorme, e muito cheio. Cheio de adolescentes idiotas se amontoando às beiradas dos pseudopopulares, dando risadas forçadas pra chamar atenção ou procurando os lugares estratégicos pra ver melhor uma gatinha bunduda. Todos se sentindo tão adultos, tão poderosos.

E lá nós duas.

Sempre havia sido nós duas. Isaura e eu. Sentadas em um canto pouco importante daquela grama bem cuidada. Ela tocava uma música qualquer em seu violão. Nunca soube pra quê exatamente ela o carregava pra todo lugar. Ninguém se importava. Nem mesmo eu, sua única amiga, me importava. Não conhecia a canção que ela tocava naquele momento.

Havia silêncio em nossos lábios, todos os dias, há muito tempo. Jamais entendi exatamente de onde surgira nossa amizade. Às vezes parecia que, num dia, nos sentamos uma próxima à outra, e simplesmente nos acostumamos a estar assim. Tantos anos e acho que nunca soube seu nome completo. Mas ainda assim, não precisávamos disso. Era essa a beleza subliminar da coisa.

- Porque esses óculos escuros, Isaura? – Vinha querendo perguntar havia alguns minutos daquele recreio. Fingia observar o céu para manter a aparência de que não me importava.

- Olhos injetados, Diana. – Esboçou uma careta sob aquele aviador espelhado, que lhe deixava com uma aparência sobremaneira bizarra, enquanto tocava uma sequência que parecia especialmente difícil. 

- Está fumando de novo? – Algumas coisas eram impossíveis de ignorar.

Encerrou a música antes de me responder. Começava a achar que conhecia aqueles acordes.

- Não sei se meu nome foi uma ironia ou uma intenção. Parecia que minha mãe sabia que iria morrer. Que iria me deixar sozinha. – Ficou com a cabeça parada por um momento, aparentando fitar o vazio. Voltou-se novamente para seu violão.

No fundo, eu sentia vontade de dizer alguma coisa, mas eu não sabia o quê. Não sabia como. Não sabia racionalizar esse sentimento.

- Não seja ridícula. Ter o nome de uma personagem que vive uma desgraça não quer dizer que você vai viver uma desgraça.

- Vem me dizer que você nunca teve um medo especial de acidentes de carro.

Fiquei calada por um momento. Ser vítima da idolatria da minha avó não me tornaria obrigatoriamente vítima da minha própria vida. Não sem que eu pudesse interferir.

- Você não respondeu minha pergunta. Está fumando de novo, Isaura?

- Estou. – Falava com tamanha calma, incomum. – E sabe, dessa vez não pretendo parar.

- Seguindo sua lógica eu deveria ser muito mais infeliz. Lady Di morre no final. Isaura se dá bem.

- Isaura é ficção, Diana. Isaura é ficção.

Recomeçou a tocar o violão. Era a mesma canção anterior.

- Parece que conheço essa música. Mas não me lembro muito bem dela.

- “Cough Syrup”. – Ela respondeu, num pigarro muito rouco.

- Ah, sim. Bonita, mas triste. Muito triste.

Ficamos em silêncio por mais tempo, em meio à canção e à gritaria do intervalo. Então, finalmente, o sinal soou. Levantei-me num pulo.

- Vem, Isaura. Que essa vida é difícil demais pra ficar vendo a banda passar – Estiquei braço e ofereci-lhe ajuda para se levantar; ela já havia parado de tocar.

- Nós não devíamos usar óculos se não fosse para vermos as coisas de forma diferente. – Minha amiga mal se movia. 

- Isaura, a Marilia já está indo pra sala. Você sabe que ela não aceita que ninguém entre depois do segundo sinal. – Balancei a mão estendida para chamar sua atenção.

- Eu estou ficando cega, Diana.

...

Nenhuma frieza no mundo teria me preparado para escutar aquilo.

...

Sentei-me novamente ao seu lado, naquela grama. Sem se importar com faltas na aula de Matemática ou se a coordenadora apareceria gritando a qualquer momento, ela retomou sua canção, tocando pelo resto de luz que seus olhos absorviam.

“… I’m waiting for this cough syrup to come down, come down”

16 de maio de 2012

Discórdia


"(...) a Discórdia infatigável,
Companheira e irmã do homicida Ares,
Quem a princípio se apresenta timidamente, mas que logo
Anda pela terra enquanto a fronte toca o céu." Homero - Ilíada

- Quem dera fosse eu um passarinho. – Ele disse baixinho, entre suspiros.
- Por quê? – Ela falava entre dentes, sem movimentar a cabeça ou focalizar o olhar vazio.
- Por que o quê?
- Por que você queria ser um passarinho.
- Ah, estava apenas pensando alto. Nada demais. Só uma reflexão boba. Não vale a pena falar sobre.
- Nós estamos sentados aqui há mais de quarenta minutos sem trocar mais do que cinco palavras. Por favor, diga algo sobre essa reflexão boba, antes que o silêncio comece a fazer mais barulho que a minha circulação sanguínea.
Ambos se endireitaram sobre o tapete não muito felpudo, apoiados na parede da sala.
- Ok, vou começar a falar agora. Bem, eu gostaria de ser um passarinho.
- Certo, Batman. E essa parte eu já entendi.
- (Um olhar raivoso) Precisava mesmo dessa grosseria, Anna? Também não vou desenvolver meu pensamento mais.
- (Um acre tom irônico) Desculpa-me, Hulk, não intendia deixar-te zangado – (Um doce olhar sarcástico) – Não obstante, não enxergo tal grosseria. Por qual razão Vossa Mercê gostaria de ser um passarinho?
- Mais uma gracinha, e eu me calo
- Mais uma frescura, e eu não te escuto.
- Você quem pediu que eu falasse sobre minha reflexão, desgraçada. Admita, você não queria me escutar, queria era me esculachar. Seu veneno não estava aguentando ficar tanto tempo fechado dentro dessa boca enorme, sua língua de cobra já clamava por liberdade.
- Se você ia ficar se machucando com qualquer coisinha que eu falasse, por que aceitou falar sobre essa sua maldita reflexão?
- Quer saber de uma coisa, dane-se aquela reflexão, tenho uma ideia nova. Queria ser um passarinho pra poder sair voando, ficar livre de você e de brinde poder defecar na sua cabeça.
- A porta está sempre destrancada para você, Homem Pássaro. E outra coisa, aquela pasta branca é ureia, ou seja, urina, não fezes. Além disso, você já deixa tantos resquícios de urina no vaso sanitário que, na cabeça ou no banheiro, já não me faz muita diferença, actu.

Alguns poucos minutos em silêncio.

- Você não se cansa de todas as nossas melhor intencionadas conversas terminarem desse jeito?
- Não, nem tanto. Sabe, acho que foram elas que me deram a certeza de que devia me casar com você.
- Talvez. – Ele escorregou levemente as costas e encarou, pensativo, o vazio.

Mais um pouco de silêncio.

- Acho que eu só gostaria de ser um passarinho se você também pudesse ser um.
- Mas eu não tenho vontade de ser um passarinho.
- Desgraçada.

30 de abril de 2012

Maresia

O teu perfume me cheira a maresia.
Cheiro de praia, de mata, de mar...

Perfume que, em ti, nunca senti,
Mas que me será para sempre uma memória;
O aroma, tão salgado e bucólico,
De não saber entender-te;
A lembrança inesgotável de talvez,
De quase;
Quase tão bom,
Quase o melhor de uma noite cansada,
Ou o pior de uma semana relocada.

Poderia ter sido bem mais que algumas palavras ideais.

Mas não foi, não foi; não foi nem será!...

Mal guardas o acre nome meu,
Nem o dizes entre sons adocicados;
Nossa distância é tanta quanto o mar...
Entre nós, o cheiro dessa água, tão gelada e salgada;
Essa água que vem e vai; maresia
Carrega o perfume teu.

21 de março de 2012

Insomnia




Já faz duas horas que eu estou aqui na cama, deitada, sem conseguir dormir, encarando o teto. Não, não é culpa de ninguém. É culpa minha mesmo. Os dias passam e a vida permanece igual; 24 horas por dia, sete dias por semana, a mesma babaquice, as mesmas reclamações, os mesmos atos estúpidos e o mesmo tempo desperdiçado. Rancor, mau amor, revolta, orgulho, e o mundo segue girando na mesma velocidade, sem se mover um pouco a mais ou a menos por causa do meu drama. Ficar sentada, parada, esperando o oceano criar uma onda fantástica que varrerá tudo aquilo que precisa ser destruído na minha vida é inútil. A ficção IMITA a realidade, e não o contrário. Um dia vai dar certo, mas não agora, e querer apressar as coisas é desnecessário: o ritmo delas não se altera. E no meio de tanta futilidade, ainda sobra tempo pra acusar O único que não tem culpa em nada disso. Sim, Senhor, fui eu que errei, mas cadê a força de vontade pra mudar? Suponho que foi embora na última vez em que eu virei as costas pra Ti.
Então eu tenho uma vida, um Deus, um monte de gente que amo, um monte de gente que não amo, e tanta coisa pra acontecer ainda. E eu me pergunto: quando eu vou começar a fazer mais que o mínimo para que o movimento da minha existência saia do movimento retrógrado? Claro, a mesma desculpa de sempre. “Você é tão jovem, tem tanto tempo ainda para fazer tantas coisas”. Engraçado, lembro-me de me falar essas mesmas palavras há sete anos e, então; desnecessário mencionar como nada se transformou de verdade. O fato é que cada segundo imóvel, desperdiçado com choros e lamentações é um minuto a menos do meu tempo de ação que se vai. Não que isso seja tão difícil de ser percebido, mas é que é muito difícil conseguir retirar as nádegas tão confortavelmente colocadas no sofá, principalmente quando o melhor programa do universo está passando na televisão.
Uma hora a menos.
Uma hora a menos que será repetida logo em seguida, se o próximo programa for tão bom como o anterior. A dúvida fica presa, então, e em parte presa na lerdeza emocional do sofredor em questão. É complicado entender a motivação verdadeira de toda essa necessidade de drama e enrolação que permeia não só a minha vida, mas muitas – mas vamos nos ater à desgraça da minha vida: se eu não estou fazendo nem por mim, quem dirá por outros.
Um dia, talvez, eu consiga me levantar desse sofá emocional e colocar minha vida em movimento. Deus, eu com certeza vou precisar de alguma ajuda, então neste momento de insônia e reflexões vazias e infrutíferas, eu gostaria que o Senhor atentasse para a minha voz e me fizesse mais forte. Talvez, talvez amanhã seja esse dia. Esse dia em que, acreditando em Ti e em mim, eu entenderei como a vida é simples e a complicação sou eu. Sou eu. Eu.
Eu.
Estou com sono agora.