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3 de abril de 2017

Eu, um Estereótipo.


        Eu consumo ficção loucamente desde que me entendo por gente. Livros, filmes, desenhos animados. Boa parte da minha visão de mundo, por muitos anos, foi moldada por histórias e personagens da ficção. Meu pai sempre me disse que isso me dava uma visão distorcida da realidade, e, por mais que eu negasse, o fato era que eu amava minha visão distorcida da realidade.
    
     Eu sempre fui uma menina com dificuldades razoáveis pra me encaixar nos lugares e me sentir confortável em meio aos outros. A ficção era a realidade na qual pessoas como eu tinham superpoderes secretos, lutavam contra o crime, salvavam toda a dimensão mágica e ainda voltavam pra escola a tempo de serem zoadas pelos colegas de turma mais uma vez. Os livros e desenhos animados eram cheios de personagens que tinham as mesmas dúvidas e questionamentos que eu, e se sentiam como eu. Então, a decisão mais óbvia diante de mim era que a maneira certa de viver era como eles! Se, nos quadrinhos, as meninas esquisitas sempre achavam um amor no fim do corredor, talvez, se eu agisse totalmente como elas, uma hora, eu encontrasse também.
    
     Isso, obviamente, foi a maior armadilha na qual eu me coloquei na vida. Quando eu comecei a viver desenhando minha história como um roteiro de filme, eu vendi minha identidade pra uma lista de coisas que meu personagem poderia ou não, deveria ou não fazer. Eu assumi vários papéis ao longo dos anos, mas nenhum foi tão decepcionante quanto o da clássica heroína romântica indie.
    
     Batizada de "manic pixie dream girl", essas personagens são moças de personalidade viva, cheia de manias engraçadas, truques bizarros escondidos na manga, gostos peculiares, encantadoras e sempre dispostas a tirar um homem brilhante da depressão e ensiná-lo a viver como se deve. Era o papel perfeito pro meu coração carente, era a promessa do amor no fim do arco-íris! Ser uma Zooey Deschanel, uma Kirsten Dunst. A Bela de uma Fera - totalmente eu, mas totalmente amável (o que eu nunca tinha sido, diga-se de passagem).

     O fim de todas as minhas histórias foi decepção. Decepção de todo mundo que age como e espera dos outros uma atitude de personagem, ensaiada e exata. Eu fui temporariamente a garota dos sonhos de alguns rapazes, mas o complexo de musa só dura enquanto você é exatamente aquilo que se imagina. E ninguém é tão bom ator que consiga fingir o tempo todo. Viver de aparências gera o espanto de quando caem as máscaras e nós descobrimos pessoas bem menos que perfeitas por trás delas. A Manic Pixie Dream Girl não tinha sentimentos próprios, nunca se chateava, irritava, mudava de ideia, e eu me odiava sempre que fazia isso. Eu odiava ser eu, por isso eu tentava ser ela. Mas ela não era real. E os papéis que eu inventava pros outros também não.

     Eu descobri a vida de verdade quando parei de negar a realidade - a minha, e a das pessoas. Ninguém é um roteiro ensaiado, ninguém é uma coisa só na vida. Ninguém é a garota de cabelo colorido que coleciona broches antigos o tempo todo, nem o herói indie depressivo e brilhante que vai amar suas músicas favoritas. As pessoas engraçadas choram, as pessoas empolgadas desanimam. Ninguém é o que 2 horas de filme podem mostrar. Nós somos cada um como um jardim, e todo jardim tem espinhos, e é assim que a vida é mesmo. Não precisa fingir que eles não existem, como se te tornassem uma pessoa menos admirável. Todo mundo tem seus prós e contras, e nenhuma solidão é pra sempre. O mundo é enorme demais pra isso.

     Hoje, eu tô me esforçando ainda pra aprender a ser eu de verdade. E, acontece, eu sou bem chata, falo demais, rio alto, tenho preguiças, me chateio com várias coisas, sofro por antecipação, e sinto demais, demais, todas as coisas, eu sou um furacão de sentimentos (e às vezes levo as pessoas ao meu redor juntas no tornado). A vida, aos poucos, vai me mudando, melhorando e moldando, mas a única forma na qual eu aceito ser colocada é na melhor versão de mim, desenhada pelo meu Criador. Nunca poderei oferecer perfeição às pessoas, nem esperar o mesmo delas. E a vida é linda por isso.
    

25 de dezembro de 2016

31 Devocionais #22 - Sobre Jesus e Identidade, no Natal

 
O Natal é lindo na Alemanha.

     Minha avó materna está internada há alguns dias, então esse ano não tivemos celebração de Natal. A viagem de 12 dias foi cortada no 2º, todo mundo se reorganizou pra estar aqui e vê-la, cuidar como podiam. Ainda não sabemos se ela passa dessa temporada festiva. Muitas horas na recepção do hospital, ou sozinha em casa, pensando na vida e na morte. Fui tirar um tempo pra ler os evangelhos. Queria pensar em Jesus.
    
     No meu coração eu sempre comemoro Natal e Páscoa meio que do mesmo jeito. Acho impossível falar do nascimento de Jesus sem pensar na morte dEle e vice-versa. E pensar em tudo que Jesus É e fez me levou a refletir sobre Sua identidade.
    
     A passagem do menino Jesus no templo (Lucas 2:41-52) mostra que Ele já bem sabia quem era, aos 12 anos. Aliás, desde quando, será? Talvez desde os 10? 8? Uma criança, crescendo sabendo que caminhava para a morte, a morte mais importante da humanidade. Não vamos todos morrer? Mas Ele sabia o dia, a hora. Ele conhecia o cálice do qual teria que tomar, a missão que teria que cumprir. E não havia nEle medo, porque o perfeito Amor lança fora todo medo, e Ele mesmo É o Amor. Viveu uma vida impecável. Em tudo foi tentado, porém sem pecar. Amou a todos, mesmo conhecendo os corações e discernindo os pensamentos. Foi manso e humilde, mesmo sendo Ele o Verbo por cujo intermédio todas as coisas foram feitas.
    
     "NEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela." (Jo 1:4-5). Jesus viveu intensamente a vida que Lhe foi proposta, e viveu plenamente quem Ele era. Seu propósito era mudar toda a história da humanidade, e estabelecer o padrão pelo qual havíamos de viver. A pessoa mais importante de todas foi chamado por Isaías de "O Servo do Senhor". Qual é a sua identidade, mesmo?
    
     É muito fácil esquecer quem você realmente é diante da grandeza de quem É Jesus - o Amor dEle ora nos exalta, ora nos constrange. Ficamos divididos entre sermos chamados para fazer obras maiores que a dEle, mas sabendo que buscaremos pra sempre ser como Ele, e nunca conseguiremos. Envergonhamo-nos quando Ele ama as coisas que mais odiamos em nós. Somos realeza e co-herdeiros com Ele, através da Sua morte de Cruz. 
     
     A intensidade das minhas emoções faz com que minha alma fique permanentemente grudada à multidão de Sentimentos dEle por mim. Chamamos de carrossel porque subimos e descemos o tempo todo, mas o espírito busca constância. É no mais interno que fica a resposta pras nossas ansiedades e desesperos, porque a alma só se cala ante um espírito que fale mais alto. Não há 1 só dia em que meu coração não clame desesperado e procure em si algum motivo para estar aqui - mas o motivo não está em mim, está nEle.
    
     NEle vivemos, nos movemos, e existimos, porque tudo de bom que encontramos em nós é dEle, por Ele e para Ele. Por amor dEle, e com Ele, enfrentamos a morte todos os dias, para que achemos vida em abundância. Não existe nada que possa me convencer nesse mundo de que sou digna de amor, quer de Jesus, quer dos homens, mas o Amor dEle já está selado. E eu selo o meu Amor dedicando tudo que eu fizer ao Seu Nome. Ele tem meu coração, e toda a minha afeição. Toda a minha confiança. E, se algo pode me motivar a continuar, é a certeza de que eu também sou fruto do Seu trabalho, e, em mim, Ele se alegrará.
     

3 de fevereiro de 2016

"O Patinho Feio" não é sobre Beleza

      For the English version, click here.
     
     Talvez sejam os filtros, a maquiagem e a academia, mas a maioria de nós parece carregar dentro de si o sentimento de ter sido um patinho muito, muito feio, que cresceu e se tornou um belíssimo cisne de pescoço longo e elegante. Sinceramente, um pouco de auto estima não faz mal a ninguém, e longe de mim questionar o quanto uma pessoa consegue se amar mais hoje do que ontem.
          
     No entanto, crescer e entender como a percepção de beleza das pessoas é nociva me fez rejeitar fortemente a importância disso na minha vida. Pode ter sido um excesso de exposição à Funny Girl, mas a última coisa que eu quero que se destaque sobre mim é o quão bonita eu sou ou não. Eu gosto de ter e manifestar uma personalidade que fale mais alto que todas as coisas - sem necessariamente gritar sempre, mas na maioria das vezes. 
    
     Neste pensamento, eu observava as dúzias de cisnes que moram no rio logo em frente à minha casa.
    
     Uma coisa interessante que o estudo da arte me proporciona é pensar demais sobre as coisas a ponto de extrair dela significados ocultos e até então (pra mim) inexistentes, mas suficientemente reais para que meu subconsciente aprenda com eles. Provavelmente Hans Christian Andersen estivesse realmente apenas se lamentando por ter sido uma criança tão feia e desengonçada e se regozijando pela beleza e glória que os anos lhe trouxeram, mas eu prefiro entender O Patinho Feio como uma história sobre identidade.
    
     Se você nunca viu cisnes, saiba que eles são aves enormes, que limpam suas penas brancas cuidadosamente, e espirram água nas pessoas que não jogam pão na água pra eles (mas isso deve ser mal dos meus vizinhos mal acostumados). Seus filhotes são cinzentos e devem ser as criaturas mais desengonçadas e felpudas que nadam em águas doces. Quando os patos se misturam com os cisnes no rio, é bem fácil entender que um grupo não se encaixa com o outro.
    
     Depois de ser rejeitado pela mãe, irmãos, e basicamente todas as outras figuras que encontrou em sua vida, o patinho, até então, acreditava piamente ser apenas muito azarado na vida. Mesmo já conhecendo os cisnes, de ver e ouvir falar, ele não conseguia se enxergar como um deles porque não passava pela sua cabeça que ele fosse qualquer coisa além daquilo que ele havia escutado sua vida inteira. Sua identidade era deturpada, como um espelho embaçado no qual ele se olhava e enxergava apenas decepção.
    
     A vida é meio ingrata mesmo com quem não se encaixa de primeira, porque existe pressa; o mundo nunca para de girar pra que você desça e pegue o bonde em outro planeta. Nisso, a gente entende com dor no coração as desventuras do pobre patinho perdido. Há quem diga que o conto valoriza uma ideia de que exista uma superioridade entre os diferentes tipos de pessoas. Eu entendo que a maior alegria do patinho não foi descobrir que ele era belo como as aves que ele admirava - nem ter se tornado o mais belo de todos - , mas ter encontrado seu lugar, onde ele finalmente seria bem recebido, bem cuidado, compreendido - e não congelaria solitário durante o inverno. 
    
     Uma das maiores alegrias na minha vida é, depois de muita dor e sofrimento, ter descoberto quem eu sou, e ter encontrado um lugar, ou vários, em que minha presença seja desejada, em que eu cresça e faça as pessoas crescerem. Eu diria que sou um cisne hoje cercado por vários outros, mas poderíamos ser patos também, ou gaivotas, ursos, joaninhas, corvos. Posso não estar feliz todos os dias, mas eu sou feliz só por saber que eu sei quem sou e pra onde vou. O patinho feio abriu suas asas enormes e voou, e eu estou indo atrás. Espero que você um dia possa vir também. 
     
     

6 de janeiro de 2016

Nada escapa aos Teus olhos.

     For the English version, click here.

     Existe um mistério por trás dos olhos do Pai.
    
     Pra ser sincera, existe um mistério por trás de todos os olhos que estão por aí, já que fomos feitos à imagem e semelhança dEle. Como são incríveis as muitas visões que podemos ter uns sobre os outros, e como eu gostaria de me enxergar pelos olhos de outros, e como eu gostaria de emprestar meus olhos para que outros vissem valor naquilo que é precioso para mim.
    
     Mas os olhos do Senhor passam por toda a Terra. Somos 7 bilhões hoje, mas nosso Deus Forte conhece cada pessoa que já andou por este planeta. Cada pessoa que já morreu já esteve sob o olhar do Pai uma, duas, tantas vezes. Ele vê tudo, aleluia. Ele conhece tudo, glorifiquem Seu nome. Não há onde possamos nos esconder, que Seu Amor não nos encontre - pois o Senhor não é um que nos vigia como um cão de guarda, porém um que cuida de nós.
    
     Deitada aqui na minha cama, muito depois da minha hora de dormir, enquanto penso sobre quem sou, ainda acho incrível que o Senhor tenha me visto, e me escolhido. Não posso culpar aqueles que acham difícil acreditar que Deus os ama e tem um plano para eles - apesar da nossa geração acreditar que o mundo gira em torno de nossos umbigos, os números de depressão e baixa auto-estima crescem. O mundo é tóxico à nós - às nossas identidades, à cada uma das nossas características e peculiaridades. Tudo nos é roubado, tudo é uniformizado. Eu já estive assim - não sabia quem eu era, pra onde ir, sem propósito. Só medo, e dúvida.
    
     Mas, nessa multidão de 7 bilhões, nada escapa aos olhos dEle.
    
     Pra ser sincera, eu não acho que seja grande coisa. Nenhum de nós é, não podemos fazer nada sozinhos. Somos limitados, mas Ele faz por nós tudo aqui que não poderíamos fazer. Quando caímos, quando nos perdemos, quando nos calamos, quando toda esperança se esvai, Ele está lá, esperando que clamemos Seu nome. Ele é a luz que queima mais que o Sol, e eu sou só uma coisinha de nada, me gloriando no Senhor. Eu celebro minha vida, os anos que se passaram, os que virão, o que estou vivendo. Celebro cada dia difícil, celebro as dores de ir e vir, porque o Senhor vai adiante de mim cada vez que dou um novo passo.
    
     Eu acredito que o mistério da piedade se basta em como o Deus Glorificado nos mantém seguros em Seus braços, e, apesar da nossa pequenice, tem um propósito para nós. E Ele só nos diz a verdade, e Sua verdade nos liberta - quando o mundo nos diz que somos fracos, e pequenos, e nos sufoca com suas perfeições inalcançáveis, o Senhor é misericordioso, e Suas misericórdias se renovam a cada manhã, e nós nos alegramos nas nossas fraquezas, pois é nelas que o Poder dEle se aperfeiçoa a nos faz forte.
    
     Os anos podem passar, mas meu coração permanecerá maravilhado por esse Amor que me salvou, e que me salva todos os dias, do qual eu nunca serei merecedora. Eu nasci para a glória do Senhor! Meu Pai cuida de mim. E que o mundo inteiro saiba que eu sou amada, todos os bullies, todos os senhores, todos saibam que o Senhor é meu escudo, o meu melhor Amigo, que levanta minha cabeça e me toma pela mão direita quando o mundo cai ao meu redor. Havia, sim, um mistério por trás dos olhos do Pai, e eu olhei através deles, e eu descobri - eu sou dEle, e Ele é meu.