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31 de julho de 2014

"Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
"Guarda essas garras devagar,
"E nos teus belos olhos de ágata e aço
"Deixa-me aos poucos mergulhar."
   
"Quando meus dedos cobrem de carícias
"Tua cabeça e dócil torso,
"E minha mão se embriaga nas delícias
"De afagar-te o elétrico dorso,"
   
"Em sonho o vejo. Seu olhar, profundo
"Como o teu, amável felino,
"Qual dardo dilacera e fere fundo,"
   
"E, dos pés a cabeça, um fino
"Ar sutil, um perfume que envenena
"Envolve-lhe a carne morena."

O Gato - Charles Baudelaire     
     

     

25 de maio de 2011

Poslúdio

"Que tudo, até a Morte, nos mente."
                     O Esqueleto Lavrador - Charles Baudelaire

 
Ah, tu que usurpa meu sentido,
E repele-me o coração;
Que joga dados com meus olhos,
Meus tristes olhos calejados.
Ah, se tu, que mentes,
Que mentes só por teu prazer,
Que faria eu, enganado,
De luto eterno e justificado?

Ah, falsária, falsária,
Que diz com os lábios verdades escuras,
Que me penetra as vísceras em silêncio.
Diga-o! Diga-o!
Ah, se as horas se vão, porque não eu?
Se o amor se acaba, porque não o meu?
Se as dúvidas cessam, porque não as tuas?

Vinte anos se passariam e eu ainda,
Ainda o faria por ti!
Ah, mas tu, nem que a vida te obrigasse,
Nem que meu coração clamasse,
Nem que meu corpo perecesse;
Nunca o faria por mim,
Nem que eu fosse parte de ti.

À Quinta Hora


"Tudo tem uma moral: é só encontrá-la."
                                                             Lewis Carroll

À luz tremida
Que suspensa dorme, glorificada,
Em lustres pesados, de cor doirada,
Cinco rumores pairam, deslumbrados,
Tão indignamente penta versados

Um olho mágico e brilhante
Desliza por tantas desgraças;
Cinco negras gralhas grasnam!
Ah, jamais poderia a Morte Rubra, mascarada,
Ser devidamente acobertada

Um miado azulado
Flutua por ventos meridionais;
Trinta e cinco vidas
São cinco sorrisos enevoados
Em clones penta esfumaçados

Malditas se tornam as flores
Quando, em sangue escarlate, pintadas;
E, ao contemplar uma faustosa figura,
Passante tão aveludada,
Tão bela e penta glorificada!

Então, à quinta hora,
Penta escorridas e penta apressadas,
Vêm percorrendo cinco estradas;
E, nessas ruas, cheias de glória passada
Que foram, em menos de cinco minutos, atravessadas.