Mostrando postagens com marcador aniversario. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aniversario. Mostrar todas as postagens

2 de outubro de 2012

Ícaro

Ícaro foi meu primeiro grande amigo.
     
Éramos como dois filhotes de jumento, sonhando em ter asas para fugir de Creta. 
     
Fomos solitários juntos por muito tempo.
     
Solitários porque chatos. Chatos porque solitários.
      
Desentendíamo-nos da forma mais amigável possível. Entendíamo-nos da forma mais mal educada possível.
      
Passamos pelas fases mais difíceis lado a lado. Acabamos nos acostumando com nossas chatices e frescuras. Como irmãos de alma. A cada ano, refletíamos sobre o passado como se mês passado fosse muito tempo atrás. 
     
Hoje, quase sete anos depois, parece que ontem mesmo nos conhecemos.
      
Aparecia lá em casa às vezes sem avisar. Mamãe já esperava sua presença. Comia muito. Perdia peso com o tempo. E cresceu, como cresceu. Ficou tão alto.
        
Fizemos nossas asas usando penas de aves imaginárias, coladas com fé e esperança. Deixamo-las escondidas numa sala cordiforme, sem portas ou janelas, que só o futuro poderia abrir.
       
Também tivemos nossos tempos de rompimento. Coisas demais sempre eram ditas, mas às vezes elas doíam demais. Foram dias de desespero, esses em que nos tratamos como estranhos.
     
Porém, foram bons dias de desespero. Bons porque, um dia, acabaram. Terminamos a primeira fase com uma vida de sobra.
      
Hoje, Ícaro já cresceu o bastante para usar as asas que fizemos. Realmente podíamos ser pássaros, afinal. 
     
Alçou voo alguns dias atrás. 
       
    
E, se um dia o calor da vida mirrar a cola que segura suas penas, eu estarei lá para que o mar não o engula.
   
   

19 de setembro de 2012

Peggy, Maggie, Margareth.



Margareth. 
     
Margareth era Margareth.
     
Tinha nome, mas não o queria por completo. Tinha jeito de quem esconde alguma coisa, mas até esse jeito ela escondia dos outros. Mesmo depois de tantos anos, eu ainda sentia que faltava muito para conhecê-la realmente. Uma metamorfose ambulante de verdade. Raul a adoraria.
     
Vamos chamá-la aqui de Peggy. Que é como ela realmente gosta.
    
Peggy.
    
Pois bem, Peggy era Peggy.
     
Nossa amizade era difícil. Bonita, mas difícil. Unida, consolidada, mas ainda assim. Éramos diferentes demais. Muitas vezes, muito parecidas. E, mesmo dessa forma, bagunçada e incerta de sermos próximas, seguíamos nos aproximando ainda mais. Após tantos anos, ela foi o mais próximo que eu havia chegado daquela amizade idealizada de infância.
     
Foi a irmã seis meses mais velha que eu jamais teria. Foram mais broncas que recebi do que palavras amigas, em várias ocasiões – mas isso só comprovava nossa força. Sonhávamos e desejávamos coisas parecidas. Vez ou outra, as mesmas. Ou ainda, os opostos completos. Sempre seria engraçado argumentar sobre o que era melhor, ou falar de memórias nostálgicas das diversões que compartilhamos em anos passados.
     
“Peggy”, eu costumava dizer, “Vamos nos casar juntas.”. “Não, não vamos”, ela respondia. “Vou me casar muito tarde pra isso”.
     
Era sempre assim, meu coração partido, porém otimista, e seu coração partido, porém realista.
      
Houve também aquele dia, em que eu chorei. E todos aqueles outros também. Peggy tinha medo da vida real em tantos momentos, mas nos mais reais ela se abria e deixava minha tristeza entrar, pra que me deixasse em paz por um momentinho. Devolvia pra mim uma infelicidade menor. Nunca soube certamente se ela diminuía devido ao seu coração bondoso, ou se apenas roubava alguns pedaços para si.
      
Imaginávamo-nos idosas, sentadas em cadeiras de balanço, falando da vida e das coisas que conquistamos, escutando músicas antiquíssimas que nos fariam lembrar a juventude. Rugas profundas nas expressões, bochechas flácidas por tanto rir, dedos calejados por tanto digitar nossas risadas e nossa vida entre as linhas de um conto ou poema.
      
A Literatura nos salvaria das dificuldades. E nós salvaríamos uma a outra da solidão.

[Feliz Aniversário, Peggy <3 Digo, Paula <33]