31 de julho de 2014

"Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
"Guarda essas garras devagar,
"E nos teus belos olhos de ágata e aço
"Deixa-me aos poucos mergulhar."
   
"Quando meus dedos cobrem de carícias
"Tua cabeça e dócil torso,
"E minha mão se embriaga nas delícias
"De afagar-te o elétrico dorso,"
   
"Em sonho o vejo. Seu olhar, profundo
"Como o teu, amável felino,
"Qual dardo dilacera e fere fundo,"
   
"E, dos pés a cabeça, um fino
"Ar sutil, um perfume que envenena
"Envolve-lhe a carne morena."

O Gato - Charles Baudelaire     
     

     

7 de julho de 2014

[sem título]

   Às vezes eu só quero escrever, sabe. Não quero mudar o dia de alguém. Não quero transformar o mundo. Não quero tocar os corações. Só quero botar pra fora. Mas só botar pra fora dá trabalho.
     
   Só botar pra fora pode ser demais. As pessoas são más, as pessoas destroem vidro quando o tem em mãos. Eu posso ser de vidro, às vezes. Ou eu posso ser de aço. De pedra. Pedra quebra e se quebra. Eu não sei bem o que eu sou hoje. Mas isso não importa.
     
   Hoje eu não quero que faça sentido. Que você se identifique. Você pode até conseguir, mas não porque eu quis. Hoje eu só quero pensar que consegui escrever o bastante pra aliviar meu coração. Como uma torneira um registro global, abrindo e fechando uma tubulação com mais de cinquenta milímetros de diâmetro. Parada, acumulando. Preciso vazar, preciso jorrar.
       
   Então, hoje, não é para que outros entendam, para que outros concordem. Hoje eu escrevo pra mim. Pra que eu saiba que eu escrevi, que eu estive aqui. Que eu estou sentindo, estou mudando, estou pensando, estou sorrindo, estou sofrendo. Para que eu me lembre que hoje, neste momento, eu estive viva, e em explosão.
     
     

24 de junho de 2014

Funeral

Não há lamento por quem já vai tarde, além das horas marcadas para que permanecesse aqui
Ainda que por você eu me permita chorar um verso, ou dois,
Colocados numa estrofe bem escrita, bem completada, bem acertada
No meio dessa sua testa suada, escorrendo dos seus hormônios e venenos,
Queimada nas cinzas do meu último cigarro.
   
Hoje, pra mim, você morre; e morrem os poemas que pra você escrevi,
E todos os choros sofridos que me permiti chorar, e aqueles que tão prontamente engoli.
Faço funeral para que você se vá, e qualquer lembrança vá também.
Todas as canções que te cantei são agora trilha sonora de um cortejo fúnebre
Que será sua última pisada sobre as terras de mim.
   
Que você saia debaixo de minha pele e que, pelos buracos que você deixa,
Saiam os restos de tristeza e pesar que me entupiam a aorta;
E que eu seja cheia de contentamento e do bom amor que me foi roubado,
E que eu sorria mais do que sorria antes de saber que você existia,
E que eu nunca mais aceite suas migalhas, mas me farte do Pão da Vida.
   
E que, conforme seu caixão desça, e você desapareça, eu nem me lembre que um dia já sofri.
   
   

13 de abril de 2014

Ilusão

Não sei cantar
Meus dedos não deslizam tão graciosa e facilmente pelas cordas
De um violão bem afinado
Para que elas digam por mim mais que as palavras que me saiam;
Palavras ritmadas, bem rimadas,
Harmoniosas,
Contando uma história que eu ainda nem sei dizer
Se é pra valer.

Pudera eu estar tão esclarecida
Que entendesse exatamente o que a Vida
Quer me ensinar com toda essa confusão,
Toda essa bagunça, toda essa corrida
Que meu coração faz tão naturalmente em sua direção;
E eu não sei cantar, não sei dizer de forma musicada,
Porque é tão mais fácil de entender e explicar
Quando tem ritmo, melodia, e batida marcada.



7 de março de 2014

Lamentação de Poetisa

Eu me desfaço em cada verso,
E logo me refaço no seguinte,
Mas a estrofe nunca é tão completa ou tão bela
Quanto o parágrafo que construo,
O parágrafo de cada dia da vida –
Sou melhor na prosa que na poesia.

Sou melhor na prosa que na poesia,
Porque a frase contínua é vida minha;
Mas estão mortas autora e narrativa,
E não há como vivê-las de novo,
Não há como contá-las, por ora;
Só restam minhas entonações falhas de poetisa.

Sou melhor na prosa que na poesia,
Porque o meu lirismo cheira à Covardia
De quem precisa de linhas partidas, e rimas,
E figuras de linguagem e alegorias
Pra que se faça escutada, contemplada,
Para que se faça ouvida.