20 de janeiro de 2012

Haicai

Bonecas de plástico
Sorriem; sempre sozinhas,
Sempre de plástico.

Frenesi



O horizonte se ergueu e as luzes foram apagadas
Cruzamos estradas fechados em carros lotados;
As horas transcorrem-se sem batalha,
E o silêncio matuta versos horrendos.

Vozes escuras corrompem os traços
Que alguém caprichosamente delineou.
Mas, vejam! Qual sábio aceitaria
Tamanha feiura perante o Sol e os Céus?

Os ventos passeiam e cruzam-se
Numa sucessão de voos majestosos e fúnebres
A chuva perpassa, os pássaros voam pesarosamente;
Engole-se a ceia sem qualquer cerimônia

E qualquer olhar mais atento saberia
Que a verdade se escondia bem ali, atrás do mundo;
O mundo torto e desajustado que construímos
Sem pensar no quanto seríamos infelizes.

[Poesia originalmente utilizada no concurso cultural "Fragmentos do Cotidiano" da EDUFU - Editora da Universidade Federal de Uberlândia]
[Imagem: Cidade do Cabo] 

Aqui

Aqui, aqui.
Aqui estou, aqui.
Mas querendo estar ali.
Eu quero estar ali.
Ou lá, estar bem lá. Lá bem longe.
Bem lá longe, longe de mim.
Bem perto, perto de tudo.
De tudo que está bem longe de mim.
Tudo que não está aqui.
Aqui, aqui.
Eu estou aqui.

[Imagem de fonte não identificável]

3 de julho de 2011

Sorria



Sorria, sorria.
Pela grande tristeza que paira sobre sua cabeça pesada, e pela nuvem de fumaça que a cega e a faz tossir.
Sorria, sorri.
Suas mãos são tão fracas que já não sustentam o peso das mágoas, feridas e desgraças.
Sorria, sorria.
Não há ódio que supere o nojo e a repulsa que passeiam pelas suas entranhas.
Sorria, sorria, sorria.
Se existisse mazela pior que ser morta, com certeza faria parte de sua existência.
Então sorria, sorria.
O seu coração amarga as palavras pestilentas e sujas que jogaram sem pena sobre sua surdez.
Sim, sorria, sorria.
Conte seus inimigos até os dedos dos pés, depois os amigos falsários, e guarde três dedos para os amigos de verdade.
É, sorria, sorria.
Enquanto as aves voam, com asas tão majestosas, suas pernas pesadas e seu pés inchados a seguram no chão.
Mas sorria, sorria, sorria.
Só sorria, sorria, sorria.
Sorria, sorria.
Simplesmente por sorrir.

[Imagem: Tumblr]

Infortúnio



  Oi. Meu nome é Confusão, mas não se preocupe, meu sobrenome é Mental. Mas, pros mais íntimos, eu posso ser chamada de Iludida, Idiota, Estúpida e, em vários casos, Mal Amada. Ah, não se acanhe em me chamar por um apelido, já sinto como se fôssemos bons amigos.
  Meu coração é muito grande, e ele possui centenas de enormes portas e janelas, sempre abertas. Com uma frequência maior do que eu desejaria, pessoas malvadas entram e fazem um estrago horroroso, sem se preocuparem em arrumar a bagunça. É doloroso me reerguer todas as vezes, e fica mais difícil conforme o tempo passa, mas, quer saber, eu parei de sofrer ainda por isso. Além do mais, fechar todas essas portas e janelas seria um risco muito grande. Quem sabe quando as pessoas amorosas, sinceras e que se importam vão chegar?
  Enquanto eu espero, há ainda muito que pode ser feito. Dizem que, se você der amor, receberá amor. Não serei uma mentirosa, é difícil oferecer às pessoas algo que você mal conhece, mas é preciso haver algo para se acreditar, não? E é assim que eu tenho vivido. Sem hipocrisias, posso ser uma pessoa muito difícil, mas acho que é um método que meu coração encontrou de se proteger, pelo menos uma frestinha.
  Não pense que eu quero que você sinta pena de mim. A vida está difícil, mas nem tanto. Eu objetivo com esse texto não sensibilizar alguns leitores com a minha situação. Mas como eu queria encontrar uma outra pessoa que sentisse pelo menos um pouquinho do que sinto. Não seria uma forma de me sentir menos injustiçada pelas circunstâncias, mas de ter uma leve faísca de certeza de que alguém espera e procura por mim, talvez até tenha sonhado comigo uma vida inteira.
  Aí eu poderia fechar algumas janelas. Mesmo as quebradas e remendadas.

[Imagem: Tumblr]