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2 de novembro de 2015

Welcome to the New

     Já foram 44 dias de Reino Unido e, apesar do layout estar pronto já há vários meses, não havia arriscado escrever nada ainda. 2015, na verdade, foi um ano muito parado, apesar de todos os planos que eu havia feito. Ninguém mais usa blogs hoje em dia, alguns diriam, mas eu continuo mantendo o meu, mesmo que às vezes fique tão abandonado. Casa é casa, e, no fim, a gente sempre volta. 
    
     Engraçado porque, no momento, tudo aquilo que eu chamo de "casa" é novo, diferente do que era 45 dias atrás. Agora, já estou bem estabelecida, correndo pra viver meus sonhos mas, acima de tudo, os sonhos de Deus pra mim aqui. E, mesmo sabendo que eventualmente a vida vai me levar de volta pra casa, o tal do choque cultural não me pegou. Nenhuma dificuldade me fez chorar e sentir tanto a falta do lar que eu quisesse largar tudo e ir embora correndo.
    
     Se você é alguém que já me leu em outros momentos, sabe que sempre fui muito apegada à dor, em parte por acreditar que ela constrói, muito mais que destrói. E isso é bíblico, na verdade - "melhor estar na casa em que há luto que na casa em que há riso". Não que eu não ria aqui; rio muito, o tempo todo, pelos bons amigos brasileiros que vieram comigo, e pelos bons amigos que estou fazendo no ambiente um tanto hostil da universidade e na igreja tão aquecida pelo amor do Senhor que encontrei. Mas, para alguém que sempre ponderou tanto sobre solidão, nunca deixa de faltar a ponta de dor no coração quando se lembra de que tudo que já conheceu até hoje na vida está muito, muito distante.
     
     Tudo ainda é lindo, até a neblina que cegava a vista da minha janela hoje de manhã, os ternos e gravatas dos rapazes se preparando para apresentar trabalhos de arquitetura, as árvores despidas de outono, a mistura de sotaques de todos os dias. Poderia ser deslumbramento, mas é um pouco mais que isso. É gratidão.
    
     Uma gratidão bem mais funda, que consegue se regozijar no domingo perdido lavando roupa, no quarto bagunçado, na falta de família no Natal, na ausência de caronas num dia de chuva inesperada, na falta de colos e mimos quando algum mal ataca o corpo ou, tão fortemente, o coração. Muito mais que feliz por morar na Europa, no Reino Unido, em Leicester - essa cidadezinha tão mal compreendida - , estou feliz por estar construindo minha história e poder contar com esse ano tão privilegiado.
     
     Por trás de toda compra feita com dinheiro trocado hoje pra não faltar amanhã, existe um propósito muito maior, que foi orquestrado com amor pelo Autor da minha Fé. Estou cumprindo meu destino. Nada pode ser mais gostoso que isso.
   
   
     

12 de junho de 2013

[só]

No fundo, todo mundo é igualmente solitário. Quando a noite cai, quando os outros morrem, resta um ser, e só. Só o Ser. Só umas lembranças do que as outras pessoas já foram. Só um borrão do que existe à luz do Sol e da Lua. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem pra nós quando fechamos nossos olhos.
     
Dá pra contar com a companhia dos amigos ou de uma música. Da família, ou de um animal irracional. Mas acompanhar não vinga. Dois em um não vinga. Viajar. Grandes grupos. Cidade, estado, país, continente. Nada disso floresce, ou espera pra que veja a Vida passar. Valorizamos tanto a individualidade, o individualismo, o único ser. Qual o sentido em ser, se a morte está à espreita e quase nada do que fomos resta depois que deixamos a superfície, e vamos ser esquecidos no subsolo?  No fundo, todo mundo é igualmente desnecessário.
     
Nunca tive razões pra sofrer pela solidão em um Dia dos Namorados. Mas sempre tive razões pra sofrer pela solidão de todos os outros dias. De todos os anos que vivi até agora. De todo esse buraco que me consome, ainda que eu agora tenha gentes com quem dividir as frustrações. Mesmo assim. Quando a noite cai, conforme os outros morram, restarei eu, só. Só eu. Só umas lembranças do que as pessoas ao meu redor são, e já foram. Só um borrão de memória das coisas que eu vejo enquanto há luz. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem quando fechamos os olhos, e encaramos o mais íntimo do vazio da nossa solidão.
   
      

29 de maio de 2013

Preterida



Pretérito, passado, deixado,
Mais-que-perfeito recado
Em sombras, sons e limões;
Já foi, não é;
Se foi, se dói.
      
Um pássaro bêbado voa entortado,
E despeja desgraça num tempo passado,
Cheirando a cigarro e açúcar salgado;
Mal veio, já foi;
Se veio, se foi.
     
Quão tarde, quão cedo,
Um frio inesperado;
Meu coração motorizado desligado.
Podia, mas não;
Doente e são.
      
Sumido, chegado, malvado,
Mentido, metido, enrolado;
A Preterida fica no passado!...
Maldita, se cala;
Não diga mais nada.
      
Good bye. Bis bald. Au revoir.