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3 de janeiro de 2017

31 Devocionais #25 - Beleza pra quê??

     Eu escrevo demais. E isso é decorrente do fato de que eu falo demais. Isso faz tão parte da minha identidade, que se reflete na forma como eu lido com o Pai em secreto. Falo muito e faço várias perguntas. Esses dias, fiquei pensando naquela ali em cima - beleza pra quê? Coloquei diante do Pai. 

     Meninas crescem ouvindo sobre beleza, sendo dominadas pela ideia de beleza, e sendo cobradas na beleza quando mal sabem que são meninas ainda. Crescemos todas assim. Competimos umas com as outras, porque o (nosso) mundo é das mais belas, mais jovens. Como resultado, a maioria de nós, independente do que o mundo diga, se sente inadequada. Feia. Rejeitada. Sempre insuficiente. Gorda demais, alta demais, o nariz, os lábios, os olhos. Tudo errado. 
     
     Como cristãs, precisamos entender que fomos desenhadas com Amor pelo Pai. E isso vai além do clichê que ouvimos toda vida. Os funcionalistas da Bauhaus, no século XX, diziam que, no design, a forma seguia a função, e eu amo como isso se aplica à obra do Senhor. Nosso design revela nosso propósito! Nossa personalidade, nosso jeito, nossa vocação, e, nisso tudo, nossa aparência. Ester teve a beleza que a levaria a ser escolhida como esposa do rei. Lia, mesmo tendo sido chamada menos bela que Raquel, sua irmã, foi escolhida e cuidada pelo Senhor, e entrou na linhagem do Messias. Até a Jesus, nosso Salvador, foi reservada uma aparência específica, como nos revela Isaías 53 - modesta diante dos homens, mas que escondia Sua Glória. 
     
     Você tem a aparência exata que convém ao seu destino, à sua identidade. Tenha boa mordomia do corpo que o Senhor te deu, mas não acredite nas mentiras que te contaram sobre ele. Sabemos que o nosso Senhor Deus é perfeito em tudo que faz, e nossas individualidade e diversidade também são manifestação da Glória dEle. Em obediência, podemos encontrar o caminho que nos guia ao cumprimento do nosso chamado - aquele lugar onde todas as peças se encaixam, e entendemos todas as circunstâncias que nos levaram até ali. 
     
     Não estamos competindo umas com as outras para descobrir quem é a mais bela, ou quem chama atenção do melhor moço. Pelo contrário, o Reino de Deus é cooperação! Ao final, entendemos que beleza também é propósito, e cada uma de nós possui um específico - e glórias ao Senhor pela perfeição da Sua obra! Não importa se, comparadas, somos mais ou menos belas - nós apenas somos, pois foi o Pai quem nos criou, e tudo que Ele faz é exato. 
     
     Por último, um apelo: não sejam enganadas pela inimizade do maligno! Sejam amigas umas das outras, sem competitividade, sem ciúmes. O Pai nos ama, todas e cada uma, e não há espaço no Reino para rixas e divisões. O mundo conhecerá que somos do Senhor se tivermos amor umas pelas outras; se o mundo diz que somos inimigas naturais, vamos mostrar a todos que somos uma só no Amor de Jesus. 
        

4 de abril de 2016

Brasileira no Reino Unido - impressões de 6 meses.

     For the English version, click here.

     Saí de casa dia 18 de Setembro, cheguei no Reino Unido dia 19. Já são seis meses e meio, na verdade. Seis meses e meio de crescimento, de desafios, de muito aprendizado, muitos sonhos realizados. Essencialmente, minha vida aqui é muito boa, e não faltam motivos - tenho bons amigos, viajo bastante, me sinto mais segura andando pelas ruas, e, em geral, toda a experiência, com os perrengues, de me virar sozinha, é muito prazerosa.

     No entanto, este é um texto sobre um não tão inesperado choque de realidade.

     Leicester, além de ser a cidade do atual líder da Premier League, é também considerada a cidade mais diversa do Reino Unido, e não sem razão. Entre amigos e conhecidos, devo lidar diariamente com pessoas de pelo menos umas 20 nacionalidades diferentes, sem contar aqueles que nasceram britânicos, mas toda sua família ainda é ligada à herança dos pais e avós. Estudo com gente do Paquistão aos Bálticos, converso todos os dias com o dono da lojinha da esquina que nasceu na Índia, e minha melhor amiga da igreja, Hannah, é meio chinesa, meio maurícia. 

     Foi a própria Hannah quem me colocou em palavras exatas as impressões que eu vinha construindo nos últimos meses, sobre como existe diversidade, mas como é baixa a miscigenação, em proporção. Apenas as gerações mais recentes têm quebrado essa cultura, e, mesmo assim, ainda é algo em desenvolvimento. Existem barreiras muito fortes, como entre chineses e indianos e negros, e, dentro das universidades, a maioria das pessoas procura andar com aqueles que são da mesma nacionalidade. Nisso tudo, sem sombra de dúvidas a maior separação fica entre pessoas inglesas e pessoas não inglesas. 

     No meio desse fogo cruzado, eu, que, nas misturas da minha família, sempre fui branca o bastante pra ser poupada do racismo no Brasil, me descobri uma peça exótica em exposição.
O título deste texto conecta minhas três realidades - como mulher, como cidadã do Brasil, e como moradora da Europa - que são a fonte da inquietação que me faz escrever sobre isso hoje. 

     Como mulher, o machismo na sociedade me coloca como um objeto em todo o tempo. Como mulher brasileira, eu carrego muitas heranças no meu sangue, entre Portugal, Espanha, Cabo Verde e povos indígenas. Como mulher brasileira residindo na Europa, eu sou avaliada sempre sob a ótica do estereótipo que meu país carrega, mas também sou colocada com todos os estrangeiros (especialmente os não europeus) no outro lado da balança, como uma pessoa de "mixed-race", e que nunca vai estar à altura de quem não carrega a miscigenação nas veias.

     Trabalhando em pubs pela cidade, não era difícil perceber que a maioria esmagadora dos rapazes ingleses preferia ser atendido pelas minhas colegas inglesas. Já escutei comentários sobre o quão "castanhos" eram meus olhos, e, numa mesma noite, me perguntaram 2 vezes se eu era asiática. Na verdade, a ânsia por saber qual a herança genética das moças não inglesas é assustadora, quase que uma forma de preencher uma checklist de etnias ao seu alcance. 

     A impressão corrente é a de que, perante os britânicos - e os europeus, em geral - , independente de quão bem eu consiga me ajustar socialmente, sempre vamos carregar aquele distintivo de estrangeiras. Exóticas - aquela palavra que carrega o peso de transformar um ser humano num objeto para apreciação. As que saem dos seus países para roubar empregos e maridos em outros. Passistas de samba, carnavalescas. As namoradas que os pais não esperavam, que os pais não aceitam. 

     Meu refúgio, em toda essa frustração, é saber que Deus também nos dá uma resposta pra isso. Minha vida, meu destino e meus caminhos estão entregues nas mãos do Todo Poderoso. E minha cidadania é dos céus. Enquanto estiver nesta Terra, serei eternamente estrangeira. Três vivas para os peregrinos!