Mostrando postagens com marcador experimental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador experimental. Mostrar todas as postagens

8 de janeiro de 2013

Fracasso



     "You are so young, and I guess I'm old"

      - Eu sou um fracasso.
    
      Estavam sentados sobre o tapete da sala. A casa era dele, porém ela ali fazia morada quando fosse necessário. Naquele momento, de frente um para o outro, era ela mais casa que os tijolos e o telhado.
    
      - Não seja idiota. Você não é fracassado. Você nem mesmo fracassou.
    
    Ele abaixou a cabeça, desanimado. Buscava abrigo e condescendência no peito dela. Desejava chorar, mas segurava. Os polegares de menina empurraram seu queixo para cima, gentilmente. Seu olhar permanecia baixo. Encarava a pequena área do tapete visível entre seus pares de pernas cruzadas.
    
   Estavam tão próximos, tocavam-se. Porém, havia ali uma distância. Ela era uma menina espirituosa, ainda que estivesse caindo em um buraco – um mesmo buraco em que ele, velho, já outrora caíra. Era veneno e remédio. Mentira e verdade. Mas ele, ele já estava cansado de ser demais.
    
     - Fracassei sim. Fracassei. Não tenho mais o que fazer, ou pra onde fugir. Nada justifica que eu sequer tente – ele desistia de conter a frustração e deixava sua voz embargar-se.
     
     Ela procurava pelas palavras que o convenceriam; procurava pelos sentimentos que o fariam acreditar. Seu corpo abrigava uma alma que se jurava envelhecida, e sua coluna encurvava-se cada vez mais. Parecia querer que seu torço tocasse o chão, para que a terra o engolisse. Braços de menina não eram fortes o bastante para contê-lo e, por si, trazer consolo. Era ele quem precisava enxergar.
    
     Usou novamente seus dedos delicados para levantá-lo. Segurou seu rosto pesado entra as mãos, colocando seus olhos em mesma altura.
    
   - Olhe aqui nos meus olhos. Olhe no fundo deles; você enxerga algo? – ele se limitou a pesadamente piscar – Não seja descrente. Sabe, eu enxergo tanto nos seus. Vejo meu reflexo, consigo me encontrar aí. Meu rosto, meus olhos, meu medo de te perder. Você está cansado, tão cansado, mas ainda consegue carregar tanto brilho. Seu olhar reflete como eu te vejo. E a minha forma de te ver é tão pouco do que você é, tão pequena perto da sua grandeza. Há tanto mais. Sua alma é tão linda. Pessoas fracassadas e próximas do fim não conseguem mais brilhar, ou refletir. Diz, você consegue se enxergar nos meus olhos?
    
     Ele focou sua atenção e adentrou os olhos castanhos juvenis. Encontrou-a; reencontrou-se.  Viu ideias sobre si, ideias de quando era jovem, sonhos que havia abandonado, desespero, esperança, e alguma vitória. Ficaram em silêncio por um tempo que não foi contado. Mergulharam nos olhos um do outro e não voltaram à superfície até que houvessem quase se afogado. 

     "I see my pretty face in his old eyes"  

[canções linkadas:
- Pretty Face - Sóley
- The Poison - The All-American Rejects]

22 de julho de 2012

The living sculptures of Pemberley

[Texto experimental, em busca de retratar o turbilhão de sensações e sentimentos que perpassam pelo meu corpo ao escutar esta canção, "The Living Sculptures of Pemberley", parte da trilha sonora da versão cinematográfica de "Pride and Prejudice". Se desejado, leia-o acompanhado pela música.]

 

   Um som, uma nota, uma pequena clave perfumada. Um sopro, uma tecla, um toque, dois toques. Acordes se formam como pássaros que voam para o Sul.
  
  Está a começar, em silêncio, uma canção de renovo. Há nos ares o cheiro de que algo grande se sucederá. Eu posso sentir, posso sentir os meus nervos se regozijando, minha penugem se arrepiando, e meus lábios a suspirar o suspiro do deleite e da beleza que me tocam, profundamente, o espírito.
 
  Como numa brisa suave de outono, que dança por entre as árvores caducas alaranjadas, assim vou eu. A canção me carrega entre os desenhos suaves de sua natureza bondosa, antes de, num ímpeto, lançar-me ao mais sofisticado e expressivo vento, entre o assombro e o êxtase. Seus acordes gentis me tomam pelas mãos, e pulamos entre nuvens tempestivas que parecem sorrir ao nosso caminhar. Pelos altos e baixos, o Puro nos revela as palavras inexistentes da mais gloriosa musicalidade.
  
  Descanso o coração e me desfaço do desprazer, jogando-o através de uma janela voadora que tão logo aparece, já some. Sinto em minhas costas o peso invisível de plumas, que me coçam as emoções de forma tão brilhosa que meus olhos se fecham sem que minha consciência tome nota. E, fechados, iludem-nos todos com imagens e luzes tão belas quanto uma manhã árabe de Maio. Algo grande se sucederá. Algo grande está a se suceder. Algo grande me infla o peito, como um balão revestido do mais fino ouro, recheado pelo ar que me faz descansar e piscar tantas vezes que poderia entrar num coma de alegria eterna.
  
  Uma escadaria infinita e tão rebuscadamente simples, cujos degraus são como teclas de um piano cuja sinfonia é composta por anjos. E tanta luz, tanta luz cheirando a doce. Doce suave, que deixa nos olhos uma superfície limpa e um sabor latente. Minhas mãos mal se percebem a brincar com o glitter que são as lágrimas de júbilo que se deixaram escapar de meus sentidos. Maestrina de seu farfalhar, movemo-nos pela estrada de ar puro que, atrás de nós, parece executar precisos passos de bailarina. Perfeição junta à perfeição, em um beijo virginal que repousa sobre um imenso lago de cisnes. Ora mais veloz, ora menos veloz, a canção me envolve numa sequência tão macia quanto caramelo amanteigado.
  
  Mas, ah, tamanha ilusão. Permanecia presa à realidade, tentando voar para sempre com aquelas asas de penas partidas, enquanto o real peso do mundo me segurava e me acompanhava pelos pés, encoberto pelo som suave que tomava conta de todo o meu mundo. Mas não passara de um pequeno escape, e apenas por um breve momento. Um pequeno escape.
  
  Foi quando a canção se acabou.